Libélulas voadoras

Acabo de ver um helicóptero passar no alto! Dizem por aqui, vindo da boca de quem esteve, está e continuará apoiando atingidos, que um menino desenhou uma dessas libélulas voadoras e mandou para um bombeiro, pedindo que encontrasse o pai, e que dentro daquele saco, que também estava desenhado, o pai estaria vivo, dando “tiau” lá de cima. Desde que eu cheguei, foi o primeiro helicóptero que vi. Na hora, lembrei dessa história. Pensei sobre quais imagens essas crianças iriam formular e trazer consigo depois de tudo, tudo que talvez não passará. Uma outra guerreira, Fada, contou que tem um menino que…

Faz diferença?

Parece que não faz diferença nenhuma se a lama fez ou não barulho quando derramada, mas dizem que um morador do Parque da Cachoeira conseguiu se salvar porque, junto ao barulho, da gritaria enlouquecida dos macacos, ele também pôde ouvir o crepitar de uma fogueira. Eram estalos de uma floresta destruída. Parece que não faz diferença se o que vi numa tela foi uma ponte, uma barragem ou uma barreira sendo comida por lama, arrastando casas, soterrando pessoas em 36 ou em 37 segundos. Parece que não faz diferença se os pataxós viviam suas vidas à margem do rio em…

O Super-Eu e os Super nós

Sonhava em fugir com todas as pessoas do hospital! Aqui, em Brumadinho, sonho em cavar, cavar cavar… Seria meu sonho de Super-herói? O palhaço argentino, Gabriel Chamé, diz que o palhaço quando é herói é bem ao avesso, é sem querer. No dia que você cair desse sonho vai acontecer, um sujeito não pode ser tão perfeito e ainda assim ser paspalho, a não ser que isso seja contra ele mesmo. Pensei: então, é o cúmulo. O cúmulo é quando vai sem ter, foi! Aqui, é o cúmulo de muita coisa. Junto dos parceiros, precipício. Comecei a cair. Construir enormes…

O caminho da formigan

O ambulatório do Hospital da Baleia estava lotado. Eu e Dra. Suzette Marie examinávamos, de longe, por onde começar. Muitas cenas aconteciam ao mesmo tempo. Pacientes e acompanhantes de todas as idades e alturas nos olhavam, e nós olhávamos também para eles. Talvez deveríamos ser mais ágeis. Escutamos uma vozinha dizendo: “Bicho, Bicho!”. De repente, vemos um pai agachado ao lado de uma menininha de uns dois anos, apontando o dedo para uma formiga que caminhava. Nós também paramos para observar a formiga ir para o destino dela. Despedimos, acenamos, desejamos coisas para o seu caminho. Uma moça passava e teve…